segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Uma história de amor: Ambos Psi

Heloisa é o nome dela. Moça do interior, veio para Belo Horizonte com a mala cheia de sonhos,desejos e meta traçada: ser psicóloga. Nada sabia da nova vida que acabava de enraizar em solo fértil, tampouco das transformações e surpresas ao longo dos cinco anos de formação. Dentre as diversas, inúmeras experiências vividas por Helô, uma merece ser retrata fielmente com riquezas de detalhes.

Uma tarde de sábado. A última semana do mês de junho, a primeira das férias. O semestre de Helô havia sido demasiado cansativo, mal tinha tempo para respirar, muito menos pensar em namoro, festas, amigos. Portanto aquele sábado seria O Dia! O dia de liberar o estresse, ir para um samba com as amigas do interior que vieram passar o final de semana, dançar, tomar cerveja, rir, colocar a fofoca em dia.

Escolheram por um lugar na Savassi. Chegaram no bar, começaram a beber e a apreciarem o belíssimo samba de raiz. No entanto, Helô se sentia incomodada com o perfil das pessoas a sua volta. Os homens agiam como caçadores da próxima preza; e as mulheres, como prezas vestidas, maquiadas, prontas, a espera do próximo devorador. Pessoas não eram pessoas, mas objetos descartáveis e etiquetados com a seguinte frase “Válido por uma noite de prazer”.

A cada hora que passava a inquietação de Helô eclodia e o olhar crítico, desiludido, provocava um vazio existencial ainda maior. Para completar a noite, um rapaz extremamente bêbado caiu em cima de diversas grades de cerveja, levantou com o rosto cheio de sangue e se jogou em cima de uma cadeira. O máximo que os seguranças fizeram foi levar alguns cubos de gelo.

Helô começou a observar o rapaz. Ficou parada uns vinte minutos a olhar para ele. Percebeu que estava sozinho, assim decidiu se aproximar e ajudar. Educadamente se apresentou e pediu licença para sentar ao lado. Conversaram horas. Ela tentou mil e um argumentos para levá-lo ao hospital, porém nada o convenceu. As pessoas ao redor se espantavam com a atitude daquela garota. As amigas diziam “Helô, o que é isso? Deixe esse cara aí! Você tá louca? Se ele não quer ir ao médico o problema é dele. O que você pode fazer?” Mal sabia Helô que esta seria apenas a primeira vez das muitas em que a chamariam de louca. Na verdade ninguém a entendia, pois todos estavam imersos no vazio egocêntrico do Eu, Eu, Eu... É como se tivesse que lutar contra uma sociedade inteira pelo direito de ouvir uma voz que foi silenciada pela dor. E ela lutou.

Último sábado de junho, primeiro dia de batalha. O rapaz teimoso chamava-se Abelardo. O rosto dele sangrava bastante, mas Helô realmente não conseguiu levá-lo ao hospital. Desta maneira, singelamente anotou o telefone dele e disse “amanhã eu ligo para saber se está vivo”. Assim o fez. Para o alívio da mocinha o rapaz da testa machucada estava vivo. Os dois começaram a conversar todos os dias. Ele a contou que estava com depressão, afastado do emprego e com todos os cartões de crédito bloqueados pela família, disse ainda “você me conheceu no meu pior estado. Eu sou uma pessoa legal.”

Após uma semana Abelardo e Helô decidiram se encontrar. No entanto por determinação do psiquiatra Abelardo não podia sair de casa. Sem pensar duas vezes Helô se ofereceu para ir até a casa dele. Não cogitou os riscos, foi movida pelo desejo de poder ver novamente aquele homem estranho e estranho. Demorou menos de duas horas para chegar na portaria do prédio. Ambos nitidamente ansiosos se abraçaram e subiram até o apartamento. Não havia mais ninguém em casa. Por uma fração de segundo Helô se arrependeu de estar ali, afinal tudo girava em torno de um desconhecido. Pensava: “E se ele for um psicopata? E se ele me matar, estuprar?” E se... E se... E se... Já era tarde demais. Começou a perceber que havia algo de estanho no olhar de Abelardo. Talvez fossem os remédios da depressão. Mas logo abandonou esses pensamentos negativos. Nada aconteceria com ela. Nunca aconteceu, porque aconteceria agora?

Entraram para o quarto, conversaram horas, ouviram música, deitaram, riram e se beijaram como se fossem namorados, como se já se conhecessem há anos. Fernando Pessoa descreveria este momento com o seguinte trecho “Quando te vi amei-te já muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci para ti antes de haver o mundo...” Helô amou Abelardo desde o dia que se conheceram. Uma busca por um amor idealizado na imperfeição. Imperfeição camuflada no mistério. Imperfeição do encontro.

Após algumas horas ali deitados em silêncio Abelardo diz “Olha eu preciso te contar toda a verdade de tudo. Não vou esconder nada. Eu sou psicótico, tenho transtorno bipolar. Conviver comigo não é nada fácil. Não quero que fique ao meu lado por pena.” Helô simplesmente o abraçou e disse “se estou aqui é porque gosto de você”. A partir daquele dia começou a visitá-lo todas as tardes sem quem ninguém soubesse. Falavam sobre livros, filmes, psicologia, esporte.

Certo dia Abelardo não deu sinal de vida. O celular, desligado. Em casa, ninguém atendia. O que fazer? A semana acabou e nada. O coração de Helô faltava saltar pela boca. Onde ele estaria? Com quem? Porque? Uma angústia sem fim. Milhões de frases sem respostas. De repente um senhor ligou para Helô perguntou se ela sabia de Abelardo. Era o pai dele. Disse que o filho estava sumido . Naquela noite Helô não dormiu nada, uma vez que o medo de Abelardo suicidar vinha como punhal em seu peito. (É importante ressaltar que está foi apenas a primeira das diversas crises ao lado dela.)

Felizmente o dia nasceu e Abelardo veio junto. Chegou em casa totalmente irritado, com o rosto machucado, gritando com todo mundo. Trancou a porta do quarto, jogou tudo no chão, quebrou o ventilador e o som. A medicação já não tomava há uma semana. Sem o lítio a instabilidade disparou. Estava na mania. Passou sete dias na rua. Ora dormiu nas calçadas, ora passou noites em claro, se embriagou em meio a pessoas desconhecidas, brigou sem motivo. E retornou ao lar apenas quando a onipotência deu lugar à impotência cruel, amarga, desesperançosa.

Helô, ao ser comunicada dos fatos, esboçou um sorriso de alívio, respirou levemente e aguardou...Abelardo entrou em contato pelo telefone no mesmo dia e dialogaram sobre os últimos acontecimentos, o que cada um viveu: emoções profundas e intensas. Ao mesmo tempo que Helô se viu perdida frente às complexidades, conseguiu entender a fortaleza do amor porto seguro enraizado em seu íntimo. Um amor porto seguro o bastante para enfrentar as ondas mais altas e as mais baixas, o ápice e a base, o fogo e água, o branco e o preto, o reto e o torto. Nos dias que seguiram Abelardo não quis falar com ninguém. Sumiu por pelo menos um mês. A depressão o deixava sem forças de levantar da cama. A vida perdeu o sentido. Pensava: “Levantar pra quê, se o fim é a morte?” a morte o sondava, pois não havia outra alternativa para exterminar o sofrimento. A cada dia que passava a tristeza aumentava como se fosse um rio prestes a transbordar. O que fazer para impedir a catástrofe de um rio acima do seu nível?? A família de Abelardo o internou em uma clínica de luxo, onde recebeu o melhor tratamento: bem estar associado á acompanhamento terapêutico e psiquiátrico, remédios eficazes em horários determinados e caminhadas diárias. Uma das grandes dificuldades do bipolar é aceitar a medicação. O lítio apresenta efeitos colaterais, tais como perda do reflexo, lentidão nas tarefas psico- motoras, que “afetam” as atividades do paciente. É muito comum o abandono do medicamento na mania, afinal o bipolar se sente auto-suficiente e poderoso o bastante para não depender de nada e ninguém. No caso de Abelardo, aceitar o lítio seria perder a autorização para dirigir.

Helô e Abelardo se falaram mais uma vez antes dele ir para a clínica. O tempo passou e Helô retomou sua rotina, tentou não pensar muito em Ablerdo. Impossível, pois a todo lugar que ia imaginava como seria se ele estivesse junto, via o rosto dele em outros rostos, sentia ligeiramente aquele perfume fresco e estonteante. E nenhuma notícia, nada... Após quatro meses Abelardo voltou para casa e telefonou para Helô, disse que queria revê-la.

O encontro aconteceu numa cafeteria. Helô chegou primeiro, nas mãos carregava o livro “Uma mente inquieta” ( presente que havia comprado pouco antes da internação). O livro se atém à autobiografia de uma psiquiatra portadora de sofrimento mental, em específico, transtorno bipolar. Em seus relatos a autora diz de suas vivências, derrotas, medos, conquistas, potenciais e a luta por um ponto de equilíbrio. Helô aguardava ansiosa (como sempre). Pouco depois Abelardo apontou na entrada. Entre abraços e lágrimas, um pedido imediato, direto: “Quer namorar comigo?” disse Abelardo. Como resposta recebeu um beijo. Pela primeira vez como namorados sentam na mesa. Pediram dois capuccinos

Abelardo começou a contar sobre o período de internação. Disse que nas primeiras semanas foi muito resistente em aceitar o tratamento. Simplesmente não suportava os médicos, os remédios que pareciam o deixar pior do que já estava e, muito menos o controle da família. Sentia-se como uma criança doente, sem autonomia, movido pelas vontades dos outros. Sabia que não estava bem, no entanto não precisava de cuidados em excesso. Após um mês e meio se rendeu ao a partir da seguinte conclusão: “Quanto mais eu resistir, mais tempo vão me prender aqui. Então, já que não tenho escolha, vou tentar pra láaa..” Este momento foi crucial para o tratamento de Abelardo, pois as crises diminuíram, a estabilidade deslocou do plano do inatingível para o real possível. Em dois meses e meio de internação o “ ser bipolar” deu lugar ao “ ser capaz de criar, viver, amar, sofrer, sonhar, sobreviver, construir, desconstruir”. Aberlardo conseguiu paulatinamente arrancar o rótulo pregado, impregnado em sua testa. Dentro da clínica começou a escrever crônicas, poesias e não via a hora de reencontrar sua amada, pedi-la em namoro e retomar a vida cotidiana. Em três meses, apesar das crises, já havia estabilidade. Se tudo continuasse bem em um mês Abelardo retia autorização de continuar o tratamento em casa, perto das pessoas queridas. Tudo ocorreu bem. Um mês depois Abelardo estava numa cafeteria com Helô e cheio de planos.

Em meio a tantas emoções Helô se esqueceu do livro. Após horas de conversa se lembrou do embrulho que tinha em mãos. Entregar o livro a Abelardo representava muito na vida dela. Não se tratava de um livro qualquer. A história contada página a página parecia dizer da essência de Abelardo. De certa forma Abelardo dava vida ao livro ou o livro dava vida à Abelardo. Helô não sabia explicar direito. Sabia apenas da necessidade de compartilhar aquela leitura doce amarga com o seu amado. Eles conversaram horas e horas, mas teve um momento de silêncio, em que ouvia-se apenas as respirações. Cinco minutos estáticos e Helô diz “O livro! Uma mente inquieta. A sua mente é inquieta. Este é o meu presente pra você.” Abelardo se assustou, no entanto pegou o livro e começou a folheá-lo pausadamente, como se tivesse se lendo. Na verdade a história ali desenhada é muito parecida com a de muitos bipolares. Dor. Angústia. Produção. Depressão. Mania. Potência. Medo. Helô e Abelardo conversaram bastante sobre a obra, as frases, o transtorno bipolar e o desejo de ficarem juntos.

No caminho para a casa cada um pensou na magia do encontro. Helô se sentia nas nuvens, cheia de planos, sonhos, emoções, perspectivas. Os olhos brilhavam, iluminavam, latejavam. Abelardo estava mais leve do que nunca, próximo de uma estabilidade e das diversas, inúmeras, emaranhadas possibilidades de ser no mundo, para o mundo, com o mundo, possibilidades de ser em Helô, para Helô, com Helô.

Era uma vez. Era uma vez. “ Era uma vez” inicia as histórias infantis em que o final sempre é feliz. Era uma vez um casal chamado Helô e Abelardo. Desde o encontro na cafeteria eles não se desgrudaram. Três anos de muito amor e luta contra as diferenças, as crises e sentimentos de impotência. Tudo misturado tanto para um quanto para o outro. Nada é mar de rosas. Nesses três anos Abelardo ficou internado pelo menos mais quatro vezes. Cada saída do hospital psiquiátrico representava um recomeço. Helô recomeçou a vida várias vezes. Mulher de fibra, mulher que ama, mulher guerreira, herdeira da força da terra, força de uma guerra a favor da felicidade. A felicidade dela é Abelardo. A felicidade de Abelardo é Helô. Parece romântico em excesso, idealizado, que seja. Seja assim, como Helô e Abelardo, determinado o bastante para quebrar, romper com barreiras sociais que o impedem de relacionar em sintonia com o mundo, de sentir o cheiro do frescor da manhã e do silêncio da noite.

Helô e Abelardo souberam amar, sabem amar. Enfrentaram e enfrentam juntos toda e qualquer crise. Não conhecem o que virá depois . O amanhã é terra de ninguém, sem habitante, a espera de um cenário a se compor. Cenário imaginário, mas imprevisível.
A pergunta é: Será que Helô e Abelardo ficarão juntos? Ele é psicótico e ela é psicóloga. Ambos PSI. Se ficarão juntos eu realmente não sei. Ninguém sabe. Apenas uma fala de Helô pode esclarecer melhor o que se passa: “ Não sei se vamos continuar. Tudo é incerto demais. Mas se você dissesse que eu poderia escolher entre namorar Abelardo, um psicótico ou um outro rapaz neurótico, com certeza eu escolheria Abelardo. Não me arrependo de absolutamente nada. Começaria tudo de novo. E como começaria! As minhas emoções são ao mesmo tempo reais e devaneias, intransferíveis. Abelardo é mais do que um grande amor. E se parar por aqui, já valeu a pena. Valeu pela eternidade presente em mim, presente nele, presente no que somos juntos.”

Esta história termina com reticências. A arte da imprevisibilidade, do viver a pura essência construída nas relações entre pessoas diferentes, mas que se encontaram em alguma bifurcação da estrada e decidiram seguir viagem juntos, de mãos dadas, lado a lado, sem tropeçar nas pedras, que por sinal são muitas.

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